Encontro – Colonialismo e Eugenia: a formação de campos de concentração no nordeste brasileiro e seus reflexos no século XXI

Marcela Uchôa durante explanação
Marcela Uchôa durante explanação

Marcela Uchôa, doutoranda em filosofia na Universidade de Coimbra, investigadora associada do Instituto dos Estudos Filosóficos da Universidade de Coimbra (IEF) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Ceará, apresentou, no Encontro realizado pela APEB/Coimbra, o importante tema da formação do campos de concentração no nordeste brasileiro.

O objetivo do encontro foi informar e legitimar os movimentos de resistência surgidos no nordeste brasileiro que mediante o massacre e abandono criavam sua própria lei.

Resumo: “Com as secas do século XX famintos se dirigiam à capital do estado do Ceará, assombrando as elites que idealizavam uma Fortaleza “belle époque” moderna e limpa, o governo criou campos de concentração cercados para confinar milhares de retirantes. Mais de 70 mil mortes chegaram a ser contabilizadas nos campos em uma história de massacre, eugenia e segregação social. História esquecida e omitida especialmente pelo fato de as vítimas serem preponderantemente pobres, mestiços e nordestinos.”


Ao final da exposição, o Presidente da APEB/Coimbra, Eduardo Monteiro, trouxe um poema que muito bem relatou o que foi tratado no Encontro.

Campos de Concentração no Ceará
No Estado do Ceará
A exemplo do alemão
Houve por aqui também
Campo de concentração
Lá era pra matar judeu
Aqui o povo do sertão.
Na seca de trinta e dois
Criamos uns sete currais
Para evitar que famintos
Criassem problemas sociais
E pudessem invadir
Na capital seus mananciais.
Currais foram construídos
Em Senador Pompeu, Ipu,
Quixeramobim e Crato,
Fortaleza e Cariús.
Fortaleza teve dois
Otávio Bonfim, Pirambu.
Pessoas foram confinadas
Como bando de animais.
Tinha a cabeça raspada
Sacos de açúcar, jornais
Era o que lhes serviam
Como vestes mais usuais
Sem nome, ou identidade,
Chamados por numerais.
Desta maneira estavam
Registrados nos anais.
Só se comia farinha,
Rapadura nos currais.
Toda essa gente foi presa
Sem ter crime praticado
E para isto bastava
Somente estar esfomeado.
Pedir prato de comido
Que seria logo enjaulado.
E controlados por senhas,
Pelas forças policiais.
Quem entrava não saía,
Senão pros seus funerais.
Sessenta mil lá morreram.
Nos registros oficiais.
Para aqueles locais, todas
Pessoas foram atraídas.
Com promessas que seriam
por médicos assistidas,
Que teriam segurança
E fartura de comidas
Experiência que houve
Somente aqui no Ceará.
Que se iniciou em quinze
Naquela seca de torrar
Depois disso os alemães
Trataram de aperfeiçoar.
Alguns campos projetados
Para abrigar duas mil pessoas
Dezoito mil chegou alojar.
Presos por vilões e viloas,
Felizes os governantes
Ainda cantavam suas loas.
Em Ipu todos os dias
Morriam de sete a oito.
A maioria era de fome
E até por ser afoito,
Nas tentativas de fugas,
Pro que não havia acoito.
Nas décadas posteriores,
Pra mudar essa imagem,
governos criaram albergues
para evitar sacanagem,
mesmo assim pouco funcionou
pois sempre há malandragem.
E o povo nordestino
ainda de pires na mão,
espera de todos governos
pro problema solução.
Agora estamos na briga
pela tal transposição.
Ceará de Terra da Luz
É chamado no Brasil.
Foi nosso primeiro estado
Que escravatura aboliu
Pra isso não foi necessário
Nem mesmo usar um fuzil.
Mas a geração atual
Tem que redimir o erro
De governantes passados.
Não permitir o desterro
De seus filhos pra terra alheia
e muitos acham o enterro.

Henrique César Pinheiro
Fortaleza/Março/2008