Conversas em torno da Canção do Exílio

Pedro Góis (Centro de Estudos Sociais, UC), Eduardo Monteiro (Presidente, APEB) e Sabina Karamehmedovic (arquitecta de nacionalidade bósnia residente em Portugal).
Pedro Góis (Centro de Estudos Sociais, UC), Eduardo Monteiro (Presidente, APEB) e Sabina Karamehmedovic (arquitecta de nacionalidade bósnia residente em Portugal).

O presidente da APEB, Eduardo Monteiro, foi convidado pela diretora do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Drª Carlota Simões, a participar na conferência “Conversas em torno da Canção do Exílio”, tratando ele do tema “O estudante brasileiro em Coimbra no Séc. XXI”, onde partilhou a sua experiência com os presentes no evento.

Informações oficiais estão no link: http://ht.ly/xFmp30155x5


Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar.
É a vida desse meu lugar.
É a vida…”
Estava frio, coração palpitante, duas grandes malas e um trem, estava só.
Estação Velha, Estação Nova, Portagem, dúvida, um táxi, não, um Hostel, ou melhor, um táxi para um Hostel.
É a primeira vez que vem a Portugal, filho?
-Sim.
O que veio fazer?
-Vim estudar Direito na Universidade de Coimbra.
-Boa sorte nessa nova jornada!
-Obrigado! (Ainda com a minha voz trêmula).
Dois dias no Hostel e, finalmente, um quarto na Rua do Corvo, baixa da cidade, uma renda e 3 cauções, absurdo, uma renda e três cauções, três cauções e uma renda, engano, consentimento.
Uma íngreme subida, várias ruazinhas e becos, curiosidade, um grande portal, belas escadarias, corredores e salas históricas, o som da Cabra, primeiro dia de aula, o difícil sotaque, ahh, uma língua estrangeira? Não consigo entender nada, meu Deus, fé.
Amigos novos, amigos mais velhos, porém, todos novos amigos. Desconfiados, cautelosos, mais fechados, o inicio. Um café, dois cafés, vinte cafés, grandes amigos, próximos grandes amigos, novos grandes amigos.
Livros escritos pelos próprios professores, grandes professores.
Aulas teóricas, aulas práticas, muitas aulas, boas e más, muitas aulas. Exames de tamanho bíblico, estudo de forma intensa, notas positivas, notas negativas, muitas notas, muitos exames, muito estudo, pouco estudo, stress, cansaço, uma lágrima.
Mudança de endereço, uma medieval igreja, o Mondego e a linda e emocionante Serenata da varanda do apartamento, uma madrinha de curso, a capa negra, ah, a capa negra, mas também uma medieval igreja com muita gente, muito barulho, cheiro de cerveja, cheiro de vinho, cheiro da noite da vida estudantil.
Calor, dos quase zero aos mais de 35 graus, mais calor, mais exames, mais pressão, saudades de casa, lágrimas, obstáculos, quedas, mais quedas, o levantar, o sol quente, o verão.
Agosto, da energia dos estudantes às vazias ruas da cidade, cidade vazia de Agosto, Agosto vazio de cidade.
Mudança de endereço, sossego, estabilidade, Rua Venâncio Rodrigues. Escadas Monumentais, subir escada, descer escada, descer escada, subir escada, atitude, resistência, foco.
Uma Associação, uma oportunidade, as eleições, um cargo, responsabilidade.
Reuniões, trabalho, uma grande equipe, aulas, estudo, exames, parabenizações, equipe forte, reuniões, estudo, aulas, trabalho, erros, crescimento, acertos, mais trabalho, coesa equipe, parabenizações, reuniões, exames e muito trabalho.
Terceiro ano, uma oportunidade, uma possível mobilidade,
Erasmus,
um sonho,
Bolonha, Itália, um ano,
aprovado! Alegria, muita alegria, mais dúvidas, coração palpitante.
Só.
Falar de Coimbra é falar de algo em transição, de pontes, de oportunidades, falar de Coimbra é falar de um mundo cultural extremamente vasto em um espaço tão pequeno, de cada esquina falar de uma história, de cada exame um desafio, de cada variação climática, uma mudança de humor.
Falar de Coimbra é falar de mais de 90 nacionalidades, mas também de uma cidade que junta as variações da língua portuguesa, seja de Norte a Sul de Portugal, seja de suas ilhas, seja da enorme variedade dos Países de Língua Portuguesa.
Falar de Coimbra é falar de história, de parte de nossa história e de nosso presente.
Falar de Coimbra é falar de uma rainha coroada depois de morta, ou de uma rainha santa, ou mesmo de um rei que não voltou da guerra, mas que nunca saiu do coração do povo.
Falar de Coimbra é falar de grandes Conferências a grandes peças teatrais, de grandes convívios a variadas degustações de vinho, é falar de uma Casa Real, uma imponente Casa Real.
Falar de Coimbra é falar de “sonho e tradição”, é falar de mais “encanto”, é falar de despedida com encanto ou encanto na despedida, falar de Coimbra é, sem sombra de dúvida, falar do fado, ahh, o fado, sim, o fado.
Falar de Coimbra é falar da maior Universidade brasileira fora do Brasil, é falar de parte do Brasil em terras portuguesas, é se sentir em casa fora de casa.
…mas falar de Coimbra é falar de saudade, daquelas vidas que se repetem na estação, mas não em nossos corações. E de uma paradoxal saudade antecipada de que isso tudo nunca se acabe, mas que chegue logo o dia de voltar para casa, o dia de rever aqueles que deixamos na estação, para rever quem nunca se esquece de nós, o dia de respirar novamente os ares de nossa casa e de nossa terra, o grande dia em que a enorme saudade de lá seja saciada com “os primores que não encontro eu cá”.
E a plataforma dessa estação dessa vida desse meu lugar tão velho como a história e tão atual como os meus e os sonhos de muitos dos que aqui estão, como a minha e a vida, que se repete, de muitos que se encontram no “Exílio”. E nesse vai-e-vem de histórias, de sonhos e de pessoas, e entre a mistura de júbilo e de lágrimas compomos um pouco desse lugar, compomos um pouco do que é viver nesse tão, nesse tão rico lugar, porém, “não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá”.
Muito obrigado!


Eduardo Monteiro